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Histórias do Ray (parte 1)

Se não fosse por ele, teria perdido a chance de investigar o papel dos lipídeos em doenças e saúde.


No início de 2014, após 6 anos atuando como pós-doutor na Alemanha, eu havia publicado meu melhor artigo científico em uma das revistas Nature. Esse artigo da Nature Geosciences versa sobre o limite termodinâmico ou energético da vida em sedimentos localizados dezenas ou até centenas de metros abaixo do fundo do mar. Enquanto aprofundava meus conhecimentos na análise de lipídeos de bactérias e arquéias de ambientes marinhos extremos, o artigo acima mencionado colocou em xeque o futuro de minhas pesquisas. Meu dilema era continuar a estudar os lipídeos de microorganismos extremófilos ou me debruçar sobre os novos achados. Essa incerteza despertou um conflito bastante comum entre pós doutorandos ao melhor estilo "o que farei daqui em diante?". Conflito esse que só iria ser solucionado no final daquele ano de muita turbulência.


Ray checando experimentos de oxidação de castanhas, sempre carregando consigo seu bloco de notas amarelo – 2018

Marcos entrando no submersível Alvin em algum lugar do Golfo do México – 2011

Convidado pelo meu melhor amigo na Alemanha, o Matthias (que naquela época completava seu primeiro ano de pós doutorado nos EUA), tive a oportunidade de conhecer o Professor Emérito da Universida de da Califórnia Davis, o senhor Raymond Valentine, ou simplesmente Ray ou Doc como é conhecido. Como uma cena de filme antigo, ao chegar em Davis, fomos convidados por Ray a tomar um chá no jardim bem ornamentado atrás de sua bela casa. A primeira hora de conversa foi intensa, um monólogo onde o Ray explanava com muita energia seu recém publicado livro da trilogia sobre a importância dos ácidos graxos ômega 3 na saúde humana (longevidade humana: ácidos graxos ômega 3, bioenergética, biologia molecular e evolução).


Ray a bordo de seu barco em Sitka no Alaska – 2014

Embora soubesse o mínimo sobre a biologia dos lipídeos, em questão de horas, fui apresentado a um universo totalmente desconhecido. Como um reducionista clássico, Ray me levou de modelos de simulação dinâmica molecular às velocidades incríveis do batimento das asas de um beija-flor até doenças neurodegenerativas. Isso tudo tendo como ator principal um único ácid o graxo: o docosahexaenoico, mais conhecido por DHA. Me contou sobre seu hobby predileto (pesca de salmão e linguados a bordo de seu barco no Alaska), seu interesse por lipídeos em microorganismos e suas hipóteses envolvendo o papel fundamental dos lipídeos na bioenergética, evolução e doenças humanas.


Depois de uma semana rica em aprendizados, em meio a caminhadas diárias pelos parques do bairro com direito a degustação de figos extremamente doces "emprestados" dos vizinhos, o momento de nossa despedida iria mudar o rumo da minha carreira científica em 180 graus naquele ano de 2014. Os pontos que ele fez questão de exaustar foram: 1) que haviam ainda muitas lacunas básicas a serem preenchidas sobre estrutura e função de lipídeos; e 2) que nosso conhecimento em espectrometria de massas era ideal para avançar rapidamente nessa área por permitir a descrição de espécies moleculares de lipídeos, ou seja, as combinações de ácidos graxos que compõem os lipídeos.


A volta para a Alemanha depois dessa visita foi eufórica. Ainda nos EUA, durante nossa viagem de carro de Davis ao aeroporto de Los Angeles, eu e Matthias sonhávamos acordado pensando em diferentes frentes de atuação e planos para dar continuidade ao que acabávamos de vivenciar. Ao final do ano de 2014, já havia acumulado centenas de horas de conversas com o Ray por Skype (uma média de 2-4 horas diárias sem pausa durante finais de semana) e o mais importante: havia decidido que a melhor forma de redirecionar minha carreira no mundo dos lipídeos seria um retorno ao Brasil. Dessa maneira, eu teria mais espaço para uma mudança abrupta de área de conhecimento pois no Brasil a lipidômica estava apenas engatinhando. A Alemanha é um dos países pioneiros na análise lipidômica, porém cientificamente conservador e uma mudança de área não era bem vista pela comunidade acadêmica.


Eu no Brasil, Matthias na Alemanha e Ray com seu computador em algum "coffee shop" do Alaska. Grande parte das fotos que tenho com Ray são prints de tela durante conversas por Skype – 2016

Minha volta ao Brasil em 2016 seria minha segunda transição radical de área de pesquisa. Durante a passagem doutorado/pós doutorado em 2007 transitei entre análises de ácidos graxos em sedimentos marinhos para análise de lipídeos de membrana em microorganismos extremófilos. O artigo científico que mais me chamou atenção nessa época e que talvez me fez efetivamente mudar de área era de autoria de David Valentine na revista Nature Reviews in Microbiology em 2007. David é o filho do meio do Ray e em 2014 era o supervisor de pós doutorado do Matthias na Universidade da Califórnia Santa Barbara. Eu insisti muito para o Matthias fazer o pós doutorado com David, um renomado microbiologista marinho, mesmo sem jamais ter ouvido falar do Ray. E quando Matthias começou em Santa Barbara, ele foi rapidamente apresentado ao Ray. Nesse mesmo dia, por mensagem de texto, Matthias me contou sobre a novidade e disse que eu deveria dar um jeito de viajar para Califórnia e conhecer pessoalmente com o Ray. Levei um ano juntando dinheiro para visitar os EUA. Para minha surpresa, durante uma de nossas conversas pelos parques, descobri que o artigo do David de 2007 na verdade fora integralmente elaborado pelo Ray e enviado a seu filho por correio em forma de rascunho escrito a mão.



Marcos, Ray, David e Matthias durante um encontro em Barcelona – 2015 e ao lado um dos "blurbs" escrito a mão nas famosas "yellow pages" do bloco de notas do Ray


Entrada do escritório de advocacia para negócios Morrison & Foerster em San Francisco em frente ao edifício da Google

Essa história fez todo sentido pra mim. Literalmente ou não, havia estabelecido uma a ligação íntima com o Ray desde 2007 sem mesmo tê-lo conhecido. A minha percepção é de que nos dois momentos turbulentos de dúvida e transição na minha carreira acadêmica, ele sempre esteve me aconselhando e acompanhando. Todas as pessoas ao meu redor sabem da importância do Ray na minha vida pessoal e profissional. Neste ano de 2023, o Ray iria completar 88 anos. No começo do ano e apesar da saúde debilitada, sua cabeça continuava em ritmo frenético elaborando de teorias e ideias. Nas raras vezes em que nos encontramos online em 2022/2023, ele continuava contando suas hipóteses e seus achados na literatura com imenso entusiasmo.


Eu me sinto muito privilegiado de ter encontrado na vida um mentor tão incrível, divertido, carismático e talentoso por quem tenho imenso carinho! Descanse em paz meu amigão!!!



Nas próximas Histórias do Ray irei delinear detalhes da vida do Ray, destacando seus grandes feitos científicos (que passam por uma palestra inusitada na década de 80 para o príncipe Charles, hoje rei do Reino Unido) e seu interesse sobre a biologia dos lipídeos.


Não esqueçam de deixar comentários e/ou sugestões para mais conteúdos, ficaríamos imensamente gratos.


Aqui na PinguisLab, os lipídeos contam a história!

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